Restrição dos EUA a dados meteorológicos expõe riscos à cooperação científica e à precisão das previsões globais

Fonte: Representação ilustrativa de um satélite em órbita. Imagem gerada por IA no site ChatGPT.

No auge da crise climática, incerteza sobre dados de satélites dos EUA preocupa cientistas.

Por Isana Barreto
11/09/2025

Em junho de 2025, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) anunciou restrições ao acesso global aos dados meteorológicos produzidos pelos satélites militares do Programa “Defense Meteorological Satellite Program” (DMSP). O Departamento de Defesa dos EUA justificou a medida com base em riscos de cibersegurança, em meio a cortes orçamentários e à demissão de 800 funcionários da NOAA pelo atual governo.

Esses dados são amplamente utilizados para fins civis e científicos em todo o mundo, principalmente em previsões meteorológicas e alertas climáticos. Assim, uma eventual interrupção poderia reduzir a precisão das previsões, uma vez que os modelos dependem de múltiplas fontes de dados, sobretudo em países que não possuem satélites próprios ou dispõem de infraestrutura limitada.

A medida vai na contramão da crescente demanda por compartilhamento de informações em tempo real, essenciais para previsões mais assertivas em um cenário de mudanças climáticas e aumento da frequência de eventos extremos, como furacões, chuvas intensas e secas prolongadas.

A interrupção definitiva dos dados do programa DMSP e do sensor Special Sensor Microwave Imager/Sounder (SSMIS) estava prevista para 30 de junho de 2025, mas o Departamento de Defesa adiou a medida após pressão da comunidade científica e de órgãos civis. As notícias mais recentes indicam que o acesso foi prorrogado até setembro de 2026, quando o programa deverá ser oficialmente encerrado ou o sensor deixar de funcionar.

Com a desativação dos satélites do programa DMSP, a comunidade científica ficará sem acesso a dados de cobertura de nuvens e  temperaturas medidas pelo Operational Linescan System (OLS), os perfis de umidade e radiação térmica obtidos pelo Special Sensor Microwave Imager/Sounder (SSMIS), parâmetros oceanográficos e solar-geofísicos. Essas informações são fundamentais para prever fenômenos como o La Niña, ciclones e ondas de calor, além de contribuírem com pesquisas sobre o aquecimento global e a definição de rotas marítimas seguras.

Os satélites também monitoram as mudanças no Ártico e na Antártida há mais de 40 anos. Cientistas alertam que a perda de dados críticos fornecidos pelo governo dos EUA pode dificultar o acompanhamento das rápidas transformações nos pólos, como os níveis recordes de degelo marinho na Antártida e o desprendimento de icebergs das plataformas de gelo. Esse monitoramento é essencial para que os cientistas compreendam de que forma o aquecimento global está impactando o planeta.

Ainda que satélites europeus, japoneses e chineses possam suprir parte dessas lacunas, as regiões tropicais e os países em desenvolvimento serão os mais prejudicados por dependerem do acesso gratuito aos dados meteorológicos fornecidos pelos Estados Unidos. A restrição, portanto, exigirá ajustes nos modelos de previsão e na calibração dos cálculos, o que pode reduzir a confiabilidade das informações.

Em nota, a NOAA assegurou que, mesmo com a transição dos sistemas militares para civis, a qualidade das previsões não será comprometida, uma vez que a agência conta com seus próprios satélites, como o Joint Polar Satellite System (JPSS), equipados com o sensor Advanced Technology Microwave Sounder(ATMS), presente nos satélites Suomi-NPP, NOAA-20 e NOAA-21.

Por fim, especialistas reforçam que restrições futuras ao acesso a informações vitais podem representar um retrocesso na cooperação científica internacional. Em um cenário de crise climática, cada dado em tempo real pode ser decisivo para salvar vidas.

Autora: Isana Barreto 

Revisora: Gabriela Gomes

Referências:

EUA restringem acesso global a dados meteorológicos – CartaCapital

ospo.noaa.gov/data/messages/2025/06/MSG_20250625_1735.html

EUA contra o mundo? País restringe dados meteorológicos de satélites

Trump delays plan to cut satellite data access crucial to hurricane forecasting | Trump administration | The Guardian

Tracking sea ice is ‘early warning system’ for global heating – but the US is halting data sharing | Climate crisis | The Guardian

Defense Department will continue providing critical weather satellite data to NOAA – ABC News